Vereador evangélico declara guerra contra peça LGBT para crianças,em MG

Entre os 275 projetos contemplados pela Lei Municipal de Cultura de Belo Horizonte, que teve o resultado divulgado nesta semana, um despertou polêmica nas redes sociais depois de um post do líder da bancada cristã na Câmara Municipal, Jair di Gregório (PP). “Biba, um espetáculo infantil translúcido”, do coletivo Toda Deseo, quer discutir o preconceito contra a comunidade LGBT com crianças e pais.




Em uma rede social, o vereador publicou um vídeo, nesta quarta-feira (1º), em que diz que o espetáculo seria uma agressão à fé cristã e que não irá permitir “esse tipo de coisa” na capital mineira. “Belo Horizonte não é lata de lixo para que venham jogar tudo que não presta em cima dos nossos belo-horizontinos, não. Não vamos aceitar”, disse.

Ao G1, David Maurity, que integra o coletivo, disse que, sobre o vereador, a companhia tem uma posição de não dar nenhum tipo de visibilidade às declarações. Segundo ele, o líder da bancada evangélica não teria tido sequer o trabalhado de ler a reportagem que cita no vídeo já que se refere à Toda Deseo como um grupo que seria de fora de Belo Horizonte.

O coletivo criado na capital mineira completou cinco anos em 2018 e é voltado para o universo trans. A peça “Biba” tem previsão de ser lançada no ano que vem e vai compor uma trilogia, seguindo os espetáculos “Nossa Senhora”, de 2016, e “Glória”, que tem estreia prevista ainda para 2018.

Maurity explica que o nome pensado para o terceiro espetáculo da série, que será feito nos moldes uma peça infantil ou infanto-juvenil, é uma forma de ressinificar um xingamento, normalmente direcionado a meninos gays.

“A gente entende que preconceito é uma construção social. Crianças não nascem racistas, machistas, LGTBfóbicas. É importante dialogar principalmente com os pais dessas crianças para que não continuem reproduzindo esses preconceitos. Para que as coisas sejam tratadas como naturais, porque são naturais”, disse.




Já para o vereador, a proposta da peça seria de desconstruir valores na escola. “A ideologia de gênero pretende relativizar a verdade cristã e impor ao cidadão o que deve ser considerado ideal. Criando uma inversão de valores na mente de crianças e adolescentes.”

“Definitivamente é uma tentativa de impor uma nova antropologia que provoca uma mudança total nas pautas morais da sociedade”, afirmou, por e-mail, o vereador.

Pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura, o espetáculo receberá R$ 55 mil para montagem. De acordo com a Câmara de Fomento, responsável pela análise e seleção de projetos, a escolha dos contemplados obedece a critérios técnicos do edital.

“O espetáculo tinha condições técnicas e artísticas de ser aprovado como diversos outros que abordam diversos outros temas. (…) A gente não entra em méritos temáticos para a seleção”, disse a presidente da câmara, Cris Moreira, acrescentando que o projeto foi “extremamente bem pontuado”.

Ela ressaltou ainda que a companhia é de Belo Horizonte, diferentemente do que foi afirmado no vídeo, já que os projetos que pretendem receber incentivo pela Lei Municipal precisam ser propostos por um residente na cidade




Jair di Gregório disse que tomará “todas as providências legais para que as leis sejam cumpridas”, mas não especificou quais ações devem ser adotadas.

Antes de atuar na Câmara de Belo Horizonte, o vereador participou da dupla sertaneja Jair e Jairo, formada na década de 1980. No canal dele no YouTube, há um vídeo em que aparece cantando em programa de televisão rodeado por mulheres de maiô fio dental. Segundo ele, após a conversão para igreja evangélica, seguiu carreira como cantor cristão.

Questionado se atrações que expõem mulheres não iriam contra os princípios cristãos, afirmou que várias condutas são contra valores cristãos. “Se são feitas por adultos e respeitando o próximo e as leis, cada um responde por si”.

Outra polêmica

O vereador também participou de outra polêmica envolvendo manifestações artísticas. Em outubro de 2017, um grupo de cristãos liderado por ele protestou contra a mostra “Faça Você Mesmo Sua Capela Sistina”, de Pedro Moraleida, que ficou em cartaz no Palácio das Artes. Ele chegou a postar um vídeo nas redes sociais contra as obras do artista, no qual aborda uma professora e estudantes de escolas municipais, com o intuito de denunciar a mostra.

Na época, a Secretaria Municipal de Educação repudiou o vídeo publicado pelo vereador e afirmou que os alunos que aparecem no registro foram assistir a filmes infantis que fazem parte de um festival de curtas-metragens, em cartaz no Cine Humberto Mauro, que também fica no Palácio das Artes. A pasta destacou que a gravação ocorreu sem autorização dos professores e responsáveis, “em uma situação fora do contexto da excursão escolar”.




Vereador Jair di Gregório critica peça com infantil temática LGBT (Foto: Reprodução/Facebook)

Vereador Jair di Gregório critica peça com infantil temática LGBT (Foto: Reprodução/Facebook)

Por G1 MG, Belo Horizonte