‘Não ando sem escolta’, diz Juiz da Lava Jato no Rio

Em entrevista ao programa “Conversa com Bial”, o juiz federal Marcelo Bretas falou sobre as mudanças que Operação Lava Jato o obrigou a fazer na rotina desde que assumiu o julgamento dos casos de corrupção. Ele assume que já foi ameaçado de morte e que não anda sem escolta.




“Não ando sem escolta. Estou aqui com um dos meus melhores amigos, que é policial”, destacou o magistrado.

O juiz comentou uma polêmica nas redes sociais, onde ele postou uma imagem segurando um fuzil. Ele destacou que não gosta de armas, mas as considera um “mal necessário” para quem vive uma situação como a dele.

“Eu recebi orientação oficial para fazer esse treinamento. Os juízes têm porte de armas, porte federal. Eu não estava em um local de trabalho, estava com os meus instrutores”, explicou o magistrado.




Interrogatório de Sérgio Cabral ao juiz Marcelo Bretas teve falas ásperas (Foto: Reprodução)

Interrogatório de Sérgio Cabral ao juiz Marcelo Bretas teve falas ásperas (Foto: Reprodução)

Polêmica com Cabral

Bretas falou também sobre o depoimento que acabou em uma discussão com Sérgio Cabral, um dos principais alvos da Lava Jato no Estado do Rio de Janeiro. Em um depoimento sobre a compra de joias para a ex-primeira dama Adriana Ancelmo, o ex-governador citou supostos negócios da família do juiz no ramo de bijuterias.

Para o juiz, a informação de que familiares dele trabalhavam com bijuterias já existia e não eram novas. O pedido de transferência de Cabral para um presídio federal aconteceu por considerarem que informações que não eram devidas estavam chegando ao político dentro da prisão.




“Não foi por estar havendo alguma ameaça, mas por uma avaliação do Ministério Público. Estavam chegando informações que não deveriam na prisão. Por isso ficou determinada essa mudança para outra unidade. Na decisão, inclusive, eu fiz questão de aguardar a decisão do desembargador relator e com a decisão no tribunal, eu fiz a solicitação de mudança. E depois veio a decisão em contrário”, explicou Bretas.

O magistrado acredita que o caso não vai influenciar seu trabalho a partir daqui.

“Como pessoa eu tenho que entender o momento da vida do acusado, a repercussão de tudo o que está acontecendo. Não acho que seja o momento de medir forças ou qualquer coisa nesse nível. O próprio acusado e o advogado se desculparam e eu considero superado”, declarou.

‘Juiz não é político’

Marcelo Bretas afirmou que não tem convivência com outro juiz federal famoso por julgar ações da Lava Jato: Sérgio Moro. Ele se negou a avaliar qualquer decisão tomada pelo colega.

O magistrado disse ainda que não tem intenção de se candidatar a qualquer cargo político. “Juiz não é político. Eu não sou político e não tenho nenhuma aspiração. Às vezes me perguntam: ‘você vai se candidatar?’, como se fosse uma maravilha. Nunca tive [aspiração a carreira política]”, explicou.

Marcelo Bretas destacou ainda que o apoio popular não é visto por ele como um “afago ao ego”, mas um estímulo a seguir trabalhando corretamente como servidor público. Com uma trajetória que inclui períodos como oficial de justiça e promotor, antes de passar no concurso para juiz federal, ele destaca que a função de todos os servidores é a de servir ao público.




“Eu tenho a impressão de que, para o bem ou para o mal, muitas pessoas se identificam com o meu trabalho. O que é bom. Porque eu sou um servidor público, eu trabalho para o público. Eu lembro da ministra Carmen Lúcia, que no momento da posse fez questão de destacar que todos somos servidores do povo brasileiro”, contou Bretas.

O magistrado destacou que é importante que os juízes não tenham nenhum viés político em seu trabalho. Ele confessou que já votou em Lula, mas afirma que o trabalho de investigação deve acontecer sem influências externas.

“O trabalho do Ministério Público, da Justiça Federal e da Polícia Federal deve ser feito independente do partido, da pessoa ou da consequência que isso vá gerar na indústria, no comércio”, contou Bretas, que protestou contra uma “cultura de corrupção”.

“A corrupção sistêmica atinge uma categoria infinita de pessoas, que é a grande maioria da população que necessita do Estado. Essas pessoas são as primeiras vítimas: nos hospitais, na segurança pública e muito mais. Se você nega uma boa instrução, uma boa educação às crianças carentes, você está impedindo que ela tenha um futuro melhor. Você não mata apenas pessoas, você mata sonhos”, disse.

A ex-primeira-dama Adriana Ancelmo (Foto: Alessandro Buzas/Futura Press/Estadão Conteúdo)

A ex-primeira-dama Adriana Ancelmo (Foto: Alessandro Buzas/Futura Press/Estadão Conteúdo)




Adriana Ancelmo

O juiz destacou que tem consciência de que uma de suas decisões, a concessão de prisão domiciliar para ex-primeira-dama do Rio de Janeiro Adriana Ancelmo desagradou parte da opinião pública. Ele destacou que não se arrepende da decisão, tomada por causa dos filhos menores de idade da acusada.

“Não me arrependi e decidi de ofício, o que quer dizer que nenhum advogado me pediu isso. Talvez achassem que eu não decidiria dessa forma. Fiquei preso à minha palavra quando dei uma decisão contrária à acusada no fim de 2016, eu coloquei na decisão: ‘sei que tem filhos menores’. A lei diz que, em caso de filhos menores, o juiz pode conceder prisão domiciliar”, explicou Bretas, afirmando que não pode abrir mão de uma decisão supostamente polêmica por medo de desagradar alguém.

Acidente com sequelas

Aos 23 anos, em setembro de 1993, o juiz sofreu um acidente na Via Dutra que o deixou algumas cicatrizes, o obrigou a passar por mais de dez cirurgias e uma série de exercícios que é obrigado a fazer até hoje para retomar os movimentos que perdeu no rosto.

“Faço exercícios faciais, ginástica para melhorar a dicção, até porque sou obrigado a falar muito nas audiências”, explicou Bretas.

Segundo o magistrado, ele passou a se dedicar mais aos estudos e a se fechar depois do acidente.

“Tudo o que aconteceu e acontece na minha vida acredito que tem um propósito. Não sou do tipo que reclama do que aconteceu, eu procuro extrair um aprendizado”, contou o juiz.




Final da Copa Sul-Americana

Torcedor do Flamengo confessadamente sofredor por causa do time, o magistrado afirmou que não gosta de assistir aos jogos porque fica nervoso e que até a final da Copa Sul-Americana já foi tema de conversas até durante depoimentos com o ex-governador, torcedor do Vasco.

“O senhor Sérgio Cabral disse, ao final da audiência da semana passada, que torceria pelo Flamengo essa semana e eu vou cobrar isso dele. Eu vou estar com ele e vou cobrar isso dele”, destacou Bretas.

Por G1 Rio