Morte de turista espanhola na Rocinha afeta turismo em outras favelas do Rio

Há pelo menos 25 anos, comunidades da Zona Sul do Rio, como Rocinha, Vidigal e Santa Marta, recebem grupos de turistas em excursões guiadas. Mas com a morte da turista espanhola Maria Esperanza, na segunda-feira (23), as agências suspenderam temporariamente o passeio pela Rocinha – alguns guias seguiram operando, segundo o jornal O Globo.

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O G1 conversou com donos de algumas agências. Alguns culpam o governo pela falta de segurança na cidade, mas também há quem defenda outras medidas de segurança, como a utilização de guias locais – que moram e conhecem as favelas – para evitar riscos.

Thiago Firmino, da Favela Santa Marta Tour, diz que o maior problema das agências que fazem turismo em favelas é que eles não fazem parcerias com guias e condutores locais, que são moradores como ele, e que só querem pagar R$ 15 por pessoa.

Firmino, que só faz passeios pelo Morro Santa Marta, em Botafogo, na Zona Sul, diz que existem guias e condutores cadastrados pelo Ministério do Turismo em cerca de 20 favelas do Rio. Ele cobra R$ 100 por pessoa para visitas em inglês e R$ 70, em português, por um passeio de duas horas e meia pela favela.

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“A gente não é valorizado. Mas é o morador que conhece, que sabe como agir e por onde ir ou se abrigar numa favela, dá mais segurança aos visitantes. Mas as agências não querem pagar por nossos serviços. Pagam para ir em vários pontos turísticos, mas nas favelas não querem pagar pelo guia local. Entram sem conhecer as manhas do lugar”, disse.

O guia lembra que, assim que começaram os confrontos na Rocinha, suspendeu o trabalho no Santa Marta por três dias, para avaliar o ambiente na favela. Diz que tem contatos diretos com associação de moradores, com o comando da Unidade de Polícia Pacificadora, com o 2º BPM (Botafogo) e com líderes da comunidade.

“Uma vez estava com um grupo no meio da favela, quando ouvi uns tiros na parte alta. Levei os turistas para minha casa, fiz caipirinha para eles. Liguei e mandei mensagem para todo mundo. Quando tive a confirmação que a situação estava calma, saí com o pessoal, sem pânico. Conheço todo mundo na favela e todo mundo me conhece, podia abrigar as pessoas na casa de vários moradores. Sei quando dá e quando não dá para subir o morro, sei o que é interessante mostrar, a história da favela. Sei também que numa área conflagrada, como a Rocinha, não se deve entrar com um carro luxuoso, com vidros tão escuros e procuraria entrar pela Estrada da Gávea”, disse Firmino.

Marcelo Armstrong, dono do Favela Tour, agência de turismo que há 25 anos promove passeios pelas favelas da Rocinha e da Vila Canoas, em São Conrado, diz que a responsabilidade pela morte da turista espanhola deveria recair sobre o governo. Segundo ele, a culpa é do estado que não consegue manter um mínimo de segurança para turistas estrangeiros, visitantes e moradores.

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Armstrong conta que, por conta do acirramento da violência no Rio, a demanda pelo turismo em geral e, principalmente em favelas, caiu muito de dois anos para cá. Os passeios, segundo o site TripAdvisor custam em média R$ 120 e incluem ainda a Floresta da Tijuca – o grupo em que estava a espanhola morta na Rocinha pagou R$ 140 por pessoa.

“O culpado é o governo, que não consegue dar segurança à população. Não vou aceitar essa inversão cínica de responsabilidades. O governo é o culpado. Não vou nem entrar na questão do policial, que é mal treinado. O problema é que o Rio está sitiado por tiroteios, seja na Rocinha, em Copacabana, em Botafogo, na Lapa, em toda a cidade. Se um turista é baleado num tiroteio em Copacabana vão acabar com o turismo em Copacabana? Vão culpar a agência por isso? O que está acontecendo é uma inversão do ônus. Eu e a população pagamos muito caro pela segurança que o governo não dá. Não vou compactuar com essa inversão de responsabilidades”, disse Armstrong.

Thiago Firmino com turistas holandeses na Favela Santa Marta:

Thiago Firmino com turistas holandeses na Favela Santa Marta: ” Todo mundo me conhece e levo turista até para minha casa”. (Foto: Reprodução/ Facebook)

Dono do hostel e da agência Favela Top Tour, no Morro Santa Marta, Mário Martins também vê como grande trunfo para o sucesso da empreitada o fato de ser nascido, criado e morador da comunidade.

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“Todo o Rio de Janeiro está passando por um momento muito grande de insegurança. E não dá para entrar em comunidade sem ter alguém do local, que conheça bem o lugar e as pessoas. Isso é fundamental para garantir a segurança dos turistas. Favelas são lugares mais complicados para visitar. O caso da Rocinha é um fato muito triste que infelizmente vai atingir quem trabalha em comunidade”, disse Martins, que abriu o hostel há dois anos e nunca teve problemas com os turistas que ciceroneou.

Por conta do aumento da violência e da volta das trocas de tiros na Rocinha, há um ano a empresa City Rio Turismo deixou de fazer visitas à favela. Segundo uma funcionária, por uma questão de segurança, não é realizado mais nenhum tour por favelas.

Pouco depois do início dos conflitos na Rocinha, há cerca de três ou quatro semanas, a guia Ana Lima, da Trilha Dois Irmãos, suspendeu temporariamente as trilhas no Morro Dois Irmãos e Favela do Vidigal, em São Conrado, na Zona Sul. Além de ser moradora da comunidade, Ana disse que foi alertada por mototaxistas e motoristas de Kombi que trabalham no transporte os turistas sobre os riscos para a segurança de todos.

Desde então, Ana Lima tem transferido os passeios já reservados para a trilha da Pedra Bonita, na Gávea, na Zona Sul. E tem feito também passeios guiados pelo Centro da cidade. A trilha do Dois Irmãos custa R$ 69 por pessoa e tem duração média de quatro horas. A saída é do estacionamento do Sheraton Hotel, com subida de Kombi ou mototáxi (R$ 5), até o topo do morro e depois da caminhada, a descida se faz a pé pela favela.

“As empresas que fazem turismo em favelas deveriam fazer parceiras com guias locais. A gente sabe o que acontece na comunidade, é conhecido de todo mundo e também pode oferecer um serviço diferenciado, como a interação com os moradores, artista e comerciantes locais. É isso que torna o nosso trabalho mais atraente. A gente leva para comer um churrasco na casa de um amigo, leva num barzinho, apresenta o sacolé, mostra o projeto de reflorestamento e conta um pouco da história e da cultura do Vidigal. É mais seguro e o turista sai mais satisfeito. O que aconteceu na Rocinha foi uma fatalidade”, contou Ana, que tem certificado de excelência por um conhecido site de avaliação turística. Ela ercorre a comunidade e a trilha desde 2010 e diz que nunca passou por nenhum contratempo.

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A Jeep Tour, que há 25 anos faz passeios de jipe pelas favelas da Rocinha, Vidigal e Santa Marta, está com os tours para a Rocinha suspensos desde meados de setembro. Segundo o gerente Tomás Monnerat, como o trajeto é feito pelas ruas principais, como a Estrada da Gávea, com carro adesivado, motoristas e guias uniformizados, todo mundo consegue identificar que são turistas que estão transitando pela favela. Segundo Tomás, o tour é basicamente panorâmico. Ou seja, os turistas só desembarcam numa feira de artesanato e numa laje, na rua principal, de onde se pode apreciar a paisagem.

“Só entramos na Rocinha com a autorização da PM, seguimos uma rota segura – as ruas principais – e antes de partir para a favela buscamos informações com amigos, moradores e procurando saber se escolas e comércio está funcionando. O risco é maior quando se circula por ruas isoladas, em carros com vidros filmados e sem identificação porque ninguém sabe quem está entrando na comunidade”, disse Monnerat, que cobra R$ 145 pelo tour de três horas, que começa pegando os turistas no hotel, passa pela Rocinha e termina na Praia de São Conrado.

Tanto os guias quanto as agências e empresas ligadas ao setor turístico são cadastradas pelo Ministério do Turismo, através do Cadastur. O Cadastur visa promover o ordenamento, a formalização e a legalização dos prestadores de serviços turísticos no Brasil, por meio do cadastro de empresas e profissionais do setor.

Nesta quarta (25), o presidente da Riotur disse que um comitê vai regulamentar a circulação de turistas na cidade.

“É uma ideia nossa, não é uma coisa definitiva, para que, em certas áreas, onde o turista participa da cidade, faz a rota da cidade, exista uma regulamentação. O que há por parte das agências de viagem normas. Lamentavelmente, essa empresa que conduziu a turista, não estava cadastrada, tinha problemas efetivamente. Até o próprio carro, não era um carro sinalizado. Então, já aí começa mal”, afirmou Marcelo Alves, presidente da Riotur, destacando que essas regras serão prioridade em áreas com intervenções de segurança.

Na terça-feira (24), o secretário de Segurança Roberto Sá recebeu moradores, comerciantes e líderes comunitários da Rocinha, quando ouviu sugestões e e solicitações para melhorar as condições de segurança na favela. Sá reiteirou que há um canal de diálogo aberto com a comunidade e representantes da PM, que estavam na reunião.

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“Faremos tudo o que for possível para que sejam respeitados os direitos de todos”, disse Sá.

Uma nova reunião foi marcada para terça-feira (31), com o comandante-geral da PM, coronel Wolney Dias e com o comandante do Comando de Operações Especiais (COE), coronela Marcelo Nogueira, no Quartel Central da PM, no Centro.
Secretário de Segurança Pública se reúne com lideranças da Rocinha (Foto: Divulgação / Seseg)

Secretário de Segurança Pública se reúne com lideranças da Rocinha (Foto: Divulgação / Seseg)

Por Alba Valéria Mendonça, G1 Rio