Dados de ONG revelam que Ariquemes, RO, possui 80 pessoas morando nas ruas

Cerca de 80 pessoas estão vivendo atualmente nas ruas de Ariquemes (RO), no Vale do Jamari. Os dados foram divulgados nesta semana pela ONG Amor e Vida, que realiza o Projeto Despertar, em que faz o acolhimento de usuários de entorpecentes que convivem nas ruas do município.

Conforme o levantamento, o fator preocupante é para o aumento de mulheres em idade fértil que estão grávidas ou já tiveram filhos e continuam nas ruas. Ao todo, 15% destes moradores de rua são mulheres entre os 15 e 30 anos.

Vivendo em meio aos homens que moram nas praças públicas e prédios abandonados, muitas das mulheres acabam se prostituindo para manter o vício de consumir drogas.




Conforme a coordenadora do Projeto Despertar, Marli Fogaça, a principal dificuldade em acolher as mulheres é a própria resistência delas em aceitar ajuda por estarem sob o uso das drogas, que acabam retornando para as ruas depois de receberam os primeiros cuidados.

Já o segundo fator que dificulta no acolhimento das mulheres com dependência química é a falta de unidades especializadas no tratamento.

“As mulheres têm mais dificuldades na aceitação do tratamento do que os homens, então no estado de Rondônia, nós temos pouquíssimas clínicas que as aceitem, e mesmo assim, se a pessoa está gestante, elas não aceitam este acolhimento”, comentou Marli Fogaça.

Tentando reverter este quadro, a coordenadora do projeto explica que no local as moradoras de rua que estão gestantes são acolhidas e recebem toda a atenção com consultas médicas para a realização de exames, sendo medicadas conforme o receituário médico.

“Como elas não tem para onde ir, nós a acolhemos, por que não tem como você deixar uma mãe com uma criança nas ruas e elas recebem toda esta atenção, tanto que nós temos uma que já está conosco a mais de nove meses, onde estamos a acompanhando e ela está muito bem”, destaca.




Resistência em receber ajuda é o maio problema para acolhimento das mulheres, diz coordenadora de ONG. (Foto: Rede Amazônica/Reprodução)

Resistência em receber ajuda é o maio problema para acolhimento das mulheres, diz coordenadora de ONG. (Foto: Rede Amazônica/Reprodução)

Segundo Marli, a função social da ONG é recuperar essas mães e fazer com que estes laços afetivos maternos desse filho permaneçam e ela consiga reiniciar a vida dela longe das drogas e viverem em família. Mas ela alerta que tanto a sociedade quando os entes públicos precisam de mais compreensão.

“Ainda temos muito essa dificuldade de compreensão da própria sociedade e dos próprios equipamentos públicos em compreender que nós estamos lidando com pessoas enfermas que precisam de uma oportunidade para reconstruir as suas vidas”, relata.

Para Marli, as mulheres grávidas que foram acolhidas e conseguem ter os bebês no projeto, ela conseguem ter as crianças como um reforço positivo para sair da questão das drogas.




“Nós precisamos fazer um trabalho mais efetivo com o conselho tutelar para ter esta compreensão. Por que não é romper aquela criança dos laços maternos que vai resolver. Não vai resolver nem a situação da criança, muito menos o da mãe”, finaliza Fogaça.

Reconstruindo a vida

'Ela me dá muitas forças para superar tudo o que passei e começar uma nova vida', diz jovem que teve filha no projeto. (Foto: Rede Amazônica/Reprodução)

‘Ela me dá muitas forças para superar tudo o que passei e começar uma nova vida’, diz jovem que teve filha no projeto. (Foto: Rede Amazônica/Reprodução)

Uma jovem de 23 anos, que preferiu não se identificar, foi acolhida pelo Projeto Despertar e conta que está longe das drogas após descobrir que estava grávida e começar a frequentar o projeto.

“Foi um momento muito difícil, por que eu não conseguia abandonar o vício, mas depois que eu comecei a ir nas células, foi muito importante pra mim, pois foi mexendo comigo e retornei várias vezes. Quando eu ganhei a minha filha, eu não quis mais saber de usar drogas, por que eu sabia que eles tirariam a minha filha dos meus cuidados”, revela.

Atualmente com seis meses, a jovem busca forças no nome da filha, Vitória, para conseguir reconstruir a vida.




“A Vitória é tudo pra mim! Ela me dá muitas forças para superar tudo o que passei e começar uma nova vida. Desejo que as outras mulheres que estão na rua e que estão grávidas, que participem de tudo que eu participei, pois vão ver o quanto é importante. Ser mãe mudou a minha vida”, exclama.

Por Jeferson Carlos, G1 Ariquemes e Vale do Jamari